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Escritores Independentes

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Vida Severina

Capítulo 1 - Os retirantes

Nasceu em março de 1945, numa casinha de sapê, no meio da roça. Era uma casinha muito pobre. Severina era uma  menina que desde o seu nascimento sofreu muito, ela  nasceu com o destino traçado. 
Essa é a minha história. Fui registrada no dia 05 de abril de 1945. Nunca me disseram o dia exato do meu nascimento. 
Já muito pequena, tinha que enfrentar chuvas e sol, no meio da noite e também do dia, pois não tinha um pai responsável. Quando cismava de ir de um lugar para outro, fosse a hora que fosse, da noite ou do dia, minha mãe tinha que acompanhá-lo. Era uma espécie de andorinha.
Estou agora com 40 anos, e volto no tempo para contar a história de uma menina triste e solitária que cresceu e se tornou mulher. Pensei, muitas vezes, que depois de adulta, as coisas fossem melhorar,  mas pioraram, a ponto de desejar voltar no tempo em que era criança. Que ironia!
Meu pai, José Calado, casou-se com uma loira, de olhos azuis, muito bonita e novinha, seu nome: Marina Jacinto. Isso foi lá pras bandas de Pernambuco. Casados, eles foram morar com minha avó paterna, no sítio João Gomes, perto de Jupi. Papai bebia até cair, por isso minha mãe sofria muito com ele. 
Logo que eu nasci, meu pai se aventurou numa viagem de trabalho. Quando ele inventava essas modas, mamãe tinha de acompanhá-lo imediatamente, Não importava o dia nem a hora que tal decisão fosse tomada, ela fazia as trouxas e seguia o marido. Mais tarde ela conseguiu comprar uma mala. Viveram assim por seis longos anos.
Minha mãe teve outro filho, Severino. Ela não era amorosa com os filhos, tanto que deu meu irmão de apenas 06 meses de vida para minha avó criar. Logo ele morreu,  em  poucos dias quando ainda era um anjinho. Não tenho muitas lembranças dele.  
Quando eu completei quatro anos, minha mãe deixou meu pai. Eu era pequena, não consigo lembrar do rosto dela, mas recordo-me do momento em que ela foi embora. Meu pai tinha bebido muito naquele dia  e ela já havia planejado ir embora. Papai caiu atrás da casa de tão bêbado que estava. Parecia estar morto. 
Cansada daquela situação, minha mãe pegou todos os pratos e panelas, quebrou tudo no único vitrô da casa, pegou uma mala, me pegou pelo braço e foi para a casa do meu tio Olício, irmão do meu pai.
Era um ranchinho  de sapé. Vieram nos receber: tio Olício, sua esposa e tio Cícero. Eles eram compadres de mamãe. 
_ Compadre Cícero, eu vou embora, disse ela.
Abraçou a comadre, se despediu de tio Olício e quando foi se despedir do tio Cícero, ele a segurou pelo braço. Mas decidida, ela falou:
_ Não, compadre, deixa eu ir-me embora.
Se soltou e foi saindo com a mala na mão. Eu fui atrás dela, mas ela advertiu:
_ Você não vai comigo não, volte e fique com seu pai.
Então, tio Cícero me pegou pela mão e ela foi desaparecendo pela estrada. Nunca me esqueci daquela cena. No entanto, minha família diz que quando eu corri atrás de mamãe, ela pegou uma vara e me bateu.
Dizem que ela foi pra Recife, mas Tia Júlia, irmã de papai, mencionou tê-la visto muito doente lá pras bandas de Garanhuns. Não se sabe se ela está viva ou morta. Permanece na minha memória apenas o momento em que ela nos abandonou e partiu sabe-se lá Deus para onde.
...

Severina Calado da Silva



3 comentários:

  1. História linda e emocionante... Não vejo a hora de ver o restante... Bj

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  2. Cordel que remete a uma novela.
    Lindo!

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  3. Super lindo, ansiosa pelo resto !! Bjs

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